A ÚLTIMA ILUSÃO
"Porto Arthur, o forte dos malandros da Saúde, interessou vivamente o público. Toda a gente falava de Porto Arthur, queria conhecer o desenlace dessa barricada armada num canto de rua, perto do caes comercial. Havia lirismo, havia recordações dos Miseráveis de Victor Hugo, do divino Garoto tão citado por todos os incalculáveis cronistas dos dois hemisférios.
Quando as forças do governo julgaram a hidra da revolta, Porto Arhtur ficou com a sua bandeira vermelha, acintoso desafio.
Os leitores já sabem que, quando, após prévio acordo, se deu início ao ataque do formidável forte, o forte era uma formidável blagne.
A dinamite, os canhões, as tropas arregimentadas, os heróis desapareceram como por encanto e quando o batalhão entrou no reduto teve a desilusão de o encontrar vazio de dinamite, de canhões, de tropas, e principalmente de heróis.
A dinamite era pilhéria do boato, as tropas sonho, os heróis miragem romântica e os canhões não passavam de fortes de combustores, isto é, o símbolo da destruição da revolta.
Que terrível desilusão! Até Porto Arthur, o heróico Porto Arthur nem era porto, nem era Arthur!
O símbolo de resistência inaudita passara a rotular um centro de malandragem onde alguns cabras escovados davam expansão aos instintos ferozes, enquanto a polícia não os vinha pegar a sério.
Mas a sanha farejadora dos repórteres, que produziram a fantasia do forte às mais restritas proporções, escapara ainda o Prata Preta, o Stoessel da praça da Harmonia.
Tudo era mentira, mas ainda existia o Prata Preta alli... à preta!
Fomos então saber da história do celebrado Prata.
Ora, o Prata também é pilheria. Não se sabe até agora o personagem que mais se salientasse nos famosos distúrbios. Prata Preta costuma parar nos jaburus das ruas da Conceição, S. Jorge, etc. Em geral é um pai d'água, quebra-água, mata o bicho, embebeda-se. Os últimos conflitos lhe haviam excitado, como excitou às mulherinhas das ruelas, fazendo-as gritar mata! em acessos histéricos. Nosso Prata Preta nunca tinha sido valente…
Isso acontece a muita gente boa, que se mete em conspirações. Ele gritou também morram! e como seguia para Porto Arthur uma leva de discípulos do falecido Três Tempos, Prata, já um ídolo, acompanhou-os, titubeou e caiu nas mãos da polícia! Nem ele escapou. Era a derradeira ilusão dos leitores românticos" (A última…, 1904).