1907

O PROJETO DE EMBRANQUECIMENTO EM PRÁTICA

Serviço de Povoamento para imigração e colonização

Fotografia em tom sépia, tirada no interior de um grande refeitório com pé-direito alto e teto de madeira. A imagem mostra um salão lotado de pessoas sentadas lado a lado em longas mesas coletivas. A maioria são homens, com roupas simples — muitos usando bonés ou boinas —, e alguns poucos rostos femininos são visíveis à frente. Os olhares estão voltados diretamente para a câmera, e as expressões variam entre cansaço, desconfiança e curiosidade. À frente, sobre a mesa, há pratos e tigelas vazias. O ambiente tem janelas nas duas laterais, por onde entra luz natural. Trata-se do refeitório da Hospedaria de Imigrantes na Ilha das Flores, no Rio de Janeiro — um espaço de acolhimento temporário para estrangeiros recém-chegados ao Brasil, em funcionamento especialmente entre os séculos XIX e XX. Fotografia de autor desconhecido, pertencente à Coleção Leopoldino Brasil.

Refeitório da Hospedaria. Ilha das Flores. Sem data. Autor desconhecido. Coleção Leopoldino Brasil

O Decreto nº 6.479, de 16 de maio de 1907, criou a Diretoria-Geral do Serviço de Povoamento com o objetivo de supervisionar e organizar os trabalhos relacionados à imigração e colonização, promovidos ou apoiados pelo governo federal.

A Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, situada na Baía de Guanabara, começou a ser construída em 1883 para receber os estrangeiros que chegavam ao Rio de Janeiro, especialmente para trabalhar nas lavouras de café. A entrada massiva de europeus no país esteve diretamente relacionada à política de substituição da mão de obra negra e escravizada, intensificada a partir de 1850 com a promulgação da Lei Eusébio de Queirós e da Lei de Terras. O objetivo era atrair e controlar a composição da população brasileira, promovendo a inserção de pessoas brancas europeias para, progressivamente, reduzir a presença negra no país. Para isso, o Estado desenvolveu uma complexa estrutura administrativa, que incluía hospedarias voltadas especificamente aos imigrantes.

É equivocado pensar que o fim da escravidão representou liberdade para os milhares de trabalhadores e trabalhadoras negras que já viviam no Brasil. A ideologia do branqueamento seguiu operando, articulada ao discurso de "civilização" da nação. Com a Proclamação da República, a

Um exemplo é o Decreto nº 528, de 28 de junho de 1890, que institucionalizou o processo de branqueamento da população brasileira ao permitir a entrada livre de trabalhadores europeus para substituir a mão de obra de pessoas negras recém-libertas.

Resistências Radicais

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IMPRENSA NEGRA PAULISTA NO PÓS-ABOLIÇÃO: RESISTÊNCIA AO PROJETO EUGENISTA DE NAÇÃO BRASILEIRA

Primeira página do jornal O Clarim d'Alvorada, edição de 14 de julho de 1929, publicada em São Paulo. O cabeçalho traz em destaque o título 'O CLARIM D'ALVORADA', acompanhado do subtítulo: 'Legítimo órgão da mocidade negra – Noticioso, literário e de combate'. No centro, em letras grandes, lê-se: 'Este jornal que é uma vergonheta de esperança da raça, continua a alimentar a nossa fé robusta, em torno da realização do primeiro congresso da mocidade negra brasileira'. A página apresenta vários artigos em colunas, com títulos como 'Maldade ou mal entendido', 'A cor e a guarda civil' e 'A mocidade negra'. No canto inferior direito, há uma reportagem em destaque sobre o médico psiquiatra baiano Dr. Juliano Moreira, acompanhada de sua fotografia em preto e branco. O layout é sóbrio, em preto e branco, com tipografia em blocos, sem ilustrações além da imagem de Juliano Moreira. A edição evidencia o papel da imprensa negra como espaço de mobilização política, afirmação identitária e denúncia das práticas racistas no Brasil da Primeira República.

PRIMEIRA PÁGINA DO JORNAL CLARIM D'ALVORADA 14 DE JULHO DE 1929

No período pós-abolição, entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a imprensa negra paulista consolidou-se como um dos principais instrumentos de resistência ao racismo institucionalizado e ao projeto eugenista que visava "embranquecer" a população brasileira. O estado de São Paulo – principal destino de imigrantes europeus durante o processo de branqueamento – tornou-se também um dos pólos mais ativos dessa produção editorial negra.

Nessa paisagem surgiram jornais como O Baluarte e Getulino, de Campinas; e, na capital, títulos como O Xauter (1916), A Rua (1916), O Bandeirante (1918), O Alfinete (1918), A Liberdade (1919), A Sentinela (1920), Kosmos (1922), Clarim d'Alvorada (1924), Elite (1924), Progresso (1928) e A Voz da Raça (1933). Este último foi o órgão oficial da Frente Negra Brasileira, a mais importante organização negra da primeira metade do século XX, ativa entre 1931 e 1937.

Nesse contexto, publicações como O Exemplo (RJ, 1892-1930), O Menelick (SP, 1915), Clarim d'Alvorada (SP, 1924-1932), O Progresso (SP, 1928-1931) e A Voz da Raça (SP, 1933-1937) afirmaram identidades negras, denunciaram práticas discriminatórias e disputaram o imaginário nacional, confrontando o ideal eugenista que excluía a população negra do projeto de nação. Em seu cabeçalho, O Menelick se autodefinia como "órgão mensal, noticioso, crítico e literário dedicado aos homens de cor", explicitando sua posição no debate público.

Nesses periódicos, jornalistas e intelectuais negros – como Arlindo Veiga dos Santos, Isaltino Veiga dos Santos e José Correia Leite – combatiam o racismo científico, denunciavam a segregação nas cidades e afirmavam o valor intelectual, artístico e moral da população negra.

Em artigo publicado no jornal Correio de S. Paulo (SP), no dia 1º de maio de 1933, Arlindo Veiga dos Santos ironizava os pressupostos raciais da eugenia. Essa crítica direta ao movimento eugenista evidencia como a imprensa negra se colocava contra um projeto de nação que pretendia excluir e desumanizar a população negra.

Mais do que veículos informativos, esses jornais eram espaços de mobilização política, sociabilidade e construção de consciência coletiva. Um capítulo fundamental da resistência histórica no Brasil, ao enfrentar a ideologia eugenista e afirmar a presença e protagonismo negros na construção da nação.

FONTE:
A FRENTE Negra Brasileira apresentou um candidato. Correio de S. Paulo, São Paulo, n. 273, p. 1, 1º maio 1933.

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