1945
SONHO DA BRANQUITUDE: O PAÍS MAIS EUROPEU DAS AMÉRICAS
Decreto-Lei nº 7.967, de 18 de setembro de 1945
Revista de Imigração e Colonização, braço ideológico e discursivo do Conselho de Imigração e Colonização
O Decreto-Lei nº 7.967, de 18 de setembro de 1945, promulgado nos últimos meses do governo de Getúlio Vargas e ainda sob a influência ideológica do Estado Novo, regulava a entrada e a permanência de estrangeiros no Brasil. Em vigor até sua revogação pelo Estatuto do Estrangeiro (Lei nº 6.815/1980), o texto incorporava de forma explícita princípios racistas e eugenistas ao estabelecer políticas seletivas de imigração que buscavam controlar a composição étnica da população.
O artigo 2º do decreto determinava que a admissão de imigrantes deveria observar "a necessidade de preservar e desenvolver, na composição étnica da população, as características mais convenientes da sua ascendência europeia", deixando evidente a política de branqueamento que orientava o Estado brasileiro desde o final do século XIX. Além disso, previa a exclusão de estrangeiros considerados "indigentes", "vagabundos", portadores de doenças ou classificados como nocivos à ordem pública, e o artigo 12 exigia "prova de saúde" para a concessão de visto permanente. Tais dispositivos funcionavam como mecanismos de triagem que privilegiavam imigrantes europeus e impediam a entrada de africanos, pessoas não brancas e trabalhadores pobres.
Esse arcabouço jurídico dava continuidade aos princípios já presentes no Decreto-Lei nº 406/1938, igualmente editado sob o regime varguista, que consolidava uma doutrina migratória baseada em critérios raciais e sociais. Ambos os decretos refletiam a influência das teses eugênicas e do nacionalismo étnico amplamente difundidos na época, alinhando-se a modelos autoritários internacionais, como o fascismo italiano e o nazismo alemão. Assim, o direito foi instrumentalizado como ferramenta de exclusão racial e social, sustentando um projeto de nação que buscava "higienizar" e "branquear" a população brasileira.
Além de restringir a entrada de grupos considerados "indesejáveis", a legislação reforçava internamente a marginalização de populações negras, indígenas e pobres, ao mesmo tempo em que favorecia a colonização branca e a ocupação territorial por portugueses e outros europeus. Esse processo influenciou a formação de colônias "europeias" em diversas regiões do país, como Nova Petrópolis (RS) e Pomerode (SC), que se consolidaram com forte identidade alemã.
Caso Histórico
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APARTHEID ESCOLAR EM SÃO JOÃO BATISTA (2025)
Em fevereiro de 2025, um episódio de segregação racial em uma escola pública de Santa Catarina ganhou repercussão nacional. O caso ocorreu no Núcleo Infantil Cebolinha, em São João Batista, quando o vereador Teodoro Adão denunciou que crianças negras e brancas estavam sendo separadas em turmas distintas. Ao visitar a escola, o vereador constatou que uma das classes era composta quase integralmente por crianças negras, enquanto a outra reunia apenas crianças brancas. Questionadas, professoras relataram que a divisão "já estava feita" e que não intervieram para evitar conflitos. A denúncia foi encaminhada à secretária de Educação do município, Sandra Albino, que tentou justificar a prática alegando supostos "problemas nas declarações de raça" no momento da matrícula – argumento que escancarou o caráter discriminatório da organização escolar. O caso foi comparado a um verdadeiro "apartheid" escolar, termo que remete ao regime oficial de segregação racial na África do Sul no século XX.
A denúncia expôs não apenas o racismo institucional presente no sistema educacional catarinense, mas também a persistência de políticas e práticas de exclusão no estado que historicamente se orgulha de sua identidade "branca" e de origem europeia.
O episódio ocorreu semanas após o governador Jorginho Mello (PL) afirmar publicamente que a cidade de Pomerode se destacava "pela cor da pele das pessoas", reforçando estigmas raciais e a valorização da branquitude como identidade de prestígio. A coincidência entre as falas do governador e o caso em São João Batista evidencia como a naturalização da supremacia branca ainda estrutura as relações sociais no estado. O episódio do Apartheid Escolar em São João Batista inscreve-se, assim, na longa história de resistência da população negra contra a segregação e o racismo institucional no Brasil, denunciando a urgência de políticas públicas antirracistas e de mecanismos de responsabilização diante de práticas discriminatórias que negam o princípio constitucional da igualdade.
Resistências Radicais
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MERCEDES BATISTA: A DAMA NEGRA DA DANÇA
Fotografia da bailarina Mercedes Baptista
Mercedes Baptista (1921-2014) foi bailarina e coreógrafa, e tornou-se a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Pioneira e referência na dança afro-brasileira, Baptista é considerada uma das figuras mais importantes na inserção de artistas negros no balé erudito nacional e na valorização das matrizes culturais africanas na cena artística brasileira. Sua carreira se destacou não apenas pela excelência artística, mas também pela militância cultural, abrindo caminhos para a representatividade negra nas artes do corpo.
A partir de 1945, a bailarina frequentou a Escola de Dança da bailarina Eros Volússia, reconhecida por seu método de investigação das danças populares para a criação de um balé brasileiro de caráter erudito. Pouco tempo depois, Mercedes ingressou na Escola de Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo aluna de Yuco Lindberg. Destacando-se durante o curso, em 1948 Mercedes foi aprovada em concurso, tornando-se a primeira mulher negra a integrar o corpo de baile do Theatro Municipal. Apesar de fazer parte do grupo, a presença de bailarinos negros ainda era alvo de forte preconceito. Poucos diretores selecionavam Mercedes para atuar nos espetáculos, e, portanto, ela se apresentou em poucas oportunidades. Ainda assim, suas participações em peças nacionalistas de compositores brasileiros – além de algumas figurações – conferiram-lhe reconhecimento no meio artístico do Rio de Janeiro.
Na mesma época em que integrou o Corpo de Baile do Teatro Municipal, a bailarina realizou diversas apresentações junto ao "Teatro Experimental do Negro", fundado por Abdias do Nascimento. Ao lado de artistas como Ruth de Souza, Haroldo Costa e Santa Rosa, Mercedes Baptista atuou em prol do reconhecimento e da inclusão de atores e dançarinos negros no teatro brasileiro.
TEXTO REESCRITO E ADAPTADO PELO EDITOR-REVISOR
FONTE:
MELGAÇO, Paulo. Mercedes Baptista - A Dama Negra da Dança. São Paulo: Ed. Ciclo Continuo, 2021.
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GÓES, Weber Lopes. Racismo, eugenia no pensamento conservador brasileiro: a proposta de povo em Renato Kehl. 2015. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Marília, 2015.
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